Introdução
A religião evangélica, hoje amplamente difundida em diversos países do mundo, especialmente na América Latina, África e Estados Unidos, não surgiu de forma repentina ou isolada. Ela é o resultado de um longo processo histórico, marcado por disputas religiosas, transformações sociais, movimentos espirituais e questionamentos profundos sobre a autoridade da Igreja e a interpretação das Escrituras. Para compreender como nasceu a religião evangélica, é necessário voltar vários séculos na história, especialmente à Europa medieval, onde se encontram as raízes do cristianismo ocidental e os conflitos que levaram à Reforma Protestante.
Este artigo tem como objetivo explicar de maneira clara, aprofundada e cronológica o surgimento da religião evangélica, abordando seus antecedentes no cristianismo primitivo, o contexto da Igreja Católica na Idade Média, a Reforma Protestante do século XVI, o desenvolvimento do protestantismo, o surgimento do termo “evangélico” e sua expansão global até os dias atuais.
1. As raízes do cristianismo primitivo
Para entender o nascimento da religião evangélica, é essencial começar pelo cristianismo primitivo. O cristianismo surgiu no século I d.C., na região da Judeia, a partir da vida, ensinamentos, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré. Os primeiros cristãos eram judeus que acreditavam que Jesus era o Messias prometido nas Escrituras hebraicas.
Nos primeiros séculos, o cristianismo era um movimento minoritário e frequentemente perseguido pelo Império Romano. As comunidades cristãs se reuniam em casas, partilhavam ensinamentos transmitidos oralmente e, posteriormente, por escritos que formariam o Novo Testamento. A fé cristã estava centrada na Bíblia (especialmente no Antigo Testamento reinterpretado à luz de Cristo), na salvação pela graça de Deus e na vivência comunitária.
Com o tempo, o cristianismo se organizou institucionalmente. Líderes como bispos, presbíteros e diáconos passaram a exercer autoridade. Concílios foram realizados para definir doutrinas e combater heresias. No século IV, com o imperador Constantino, o cristianismo deixou de ser perseguido e tornou-se religião oficial do Império Romano, o que trouxe grandes mudanças.
2. A consolidação da Igreja Católica na Idade Média
Após a queda do Império Romano do Ocidente, no século V, a Igreja cristã passou a exercer um papel central na organização da sociedade europeia. A Igreja de Roma, liderada pelo papa, ganhou cada vez mais poder político, econômico e espiritual. Durante a Idade Média, o cristianismo ocidental ficou praticamente sob a autoridade exclusiva da Igreja Católica.
Nesse período, a Igreja controlava o ensino, a moral, os sacramentos e a interpretação da Bíblia. A maioria da população era analfabeta, e a Bíblia estava disponível apenas em latim, língua inacessível ao povo comum. A salvação era frequentemente apresentada como dependente da participação nos sacramentos administrados pela Igreja, como o batismo, a confissão e a eucaristia.
Com o passar dos séculos, surgiram práticas que geraram críticas, como a venda de indulgências (documentos que prometiam redução das penas pelos pecados), o acúmulo de riquezas pelo clero, o nepotismo e a corrupção moral de alguns líderes religiosos. Apesar disso, qualquer questionamento à autoridade da Igreja era duramente reprimido.
3. Os precursores da Reforma Protestante
Antes do surgimento oficial da religião evangélica, houve diversos movimentos e pensadores que criticaram a Igreja Católica e defenderam um retorno às Escrituras. Entre eles, destacam-se:
3.1 John Wycliffe
No século XIV, na Inglaterra, John Wycliffe defendeu que a Bíblia deveria ser a autoridade máxima da fé cristã, acima do papa. Ele também incentivou a tradução da Bíblia para o inglês, permitindo que o povo tivesse acesso direto às Escrituras.
3.2 Jan Hus
Inspirado por Wycliffe, Jan Hus, na atual República Tcheca, criticou os abusos da Igreja e pregou a necessidade de uma fé mais simples e bíblica. Por suas ideias, foi condenado como herege e executado em 1415.
Esses movimentos não conseguiram reformar a Igreja naquele momento, mas prepararam o terreno para mudanças mais profundas que ocorreriam no século XVI.
4. A Reforma Protestante e o nascimento do protestantismo
O marco fundamental para o nascimento da religião evangélica é a Reforma Protestante, iniciada oficialmente em 1517, na Alemanha. O principal nome desse movimento é Martinho Lutero.
4.1 Martinho Lutero e as 95 Teses
Martinho Lutero era um monge agostiniano e professor de teologia. Ao estudar a Bíblia, especialmente a carta de Paulo aos Romanos, ele chegou à convicção de que a salvação não era alcançada por obras ou indulgências, mas pela fé em Jesus Cristo. Essa doutrina ficou conhecida como “justificação pela fé”.
Indignado com a venda de indulgências, Lutero escreveu as famosas 95 Teses, que foram afixadas na porta da igreja do castelo de Wittenberg. O documento questionava práticas da Igreja e defendia uma teologia baseada nas Escrituras.
A reação da Igreja foi severa. Lutero foi excomungado, mas contou com o apoio de príncipes alemães, o que permitiu a expansão de suas ideias.
5. Os princípios fundamentais do protestantismo
Da Reforma Protestante surgiram princípios teológicos que são a base da religião evangélica até hoje. Esses princípios são conhecidos como os “Cinco Solas”:
- Sola Scriptura – Somente a Escritura é a autoridade máxima da fé.
- Sola Fide – A salvação vem somente pela fé.
- Sola Gratia – A salvação é um dom da graça de Deus.
- Solus Christus – Cristo é o único mediador entre Deus e os homens.
- Soli Deo Gloria – Toda glória pertence somente a Deus.
Esses fundamentos diferenciam profundamente o protestantismo do catolicismo medieval e moldam a identidade evangélica.
6. Outros reformadores e o surgimento de diferentes denominações
Além de Martinho Lutero, outros reformadores tiveram papel crucial no desenvolvimento do protestantismo:
6.1 João Calvino
Em Genebra, João Calvino desenvolveu uma teologia sistemática que enfatizava a soberania de Deus e a predestinação. Suas ideias influenciaram igrejas reformadas, presbiterianas e congregacionais.
6.2 Ulrico Zuínglio
Na Suíça, Zuínglio promoveu reformas semelhantes às de Lutero, mas com diferenças teológicas, especialmente sobre a ceia do Senhor.
Essas diferenças deram origem a diversas denominações protestantes, todas baseadas na Bíblia, mas com interpretações distintas.
7. O surgimento do termo “evangélico”
O termo “evangélico” vem da palavra grega euangelion, que significa “boa notícia” ou “evangelho”. Originalmente, todos os protestantes se identificavam como evangélicos, pois acreditavam estar retornando à mensagem pura do evangelho de Jesus Cristo.
Com o tempo, especialmente nos séculos XVIII e XIX, o termo passou a ser associado a movimentos de avivamento espiritual que enfatizavam a conversão pessoal, a leitura da Bíblia, a evangelização e uma vida moral transformada.
8. O movimento pietista e os grandes avivamentos
Nos séculos XVII e XVIII, surgiram movimentos dentro do protestantismo que deram origem ao evangelicalismo moderno.
8.1 Pietismo
Na Alemanha, o pietismo destacou a experiência pessoal com Deus, a devoção individual e a prática do amor cristão, indo além da simples adesão intelectual à doutrina.
8.2 Avivamentos na Inglaterra e nos Estados Unidos
Pregadores como John Wesley, Charles Wesley e George Whitefield lideraram grandes avivamentos, enfatizando o novo nascimento, a fé viva e o compromisso pessoal com Cristo. Esses movimentos deram origem ao metodismo e influenciaram fortemente o evangelicalismo.
9. A expansão global da religião evangélica
A partir do século XIX, com o avanço das missões protestantes, a religião evangélica se espalhou pelo mundo. Missionários europeus e norte-americanos levaram o evangelho à África, Ásia e América Latina.
No Brasil, por exemplo, o protestantismo chegou no século XIX com missionários presbiterianos, batistas e metodistas. No século XX, o crescimento do pentecostalismo e, mais recentemente, do neopentecostalismo, transformou profundamente o cenário religioso do país.
10. O pentecostalismo e o evangelicalismo contemporâneo
No início do século XX, surgiu o movimento pentecostal, marcado pela ênfase no Espírito Santo, nos dons espirituais e em experiências emocionais de fé. Igrejas como a Assembleia de Deus e a Congregação Cristã no Brasil tornaram-se grandes representantes desse movimento.
Hoje, o termo “evangélico” engloba uma grande diversidade de igrejas, doutrinas e estilos de culto, mas todas compartilham elementos comuns: a centralidade da Bíblia, a fé em Jesus Cristo como Salvador, a importância da conversão pessoal e o compromisso com a evangelização.
Conclusão
A religião evangélica não nasceu em um único momento nem por iniciativa de uma única pessoa. Ela é fruto de um longo processo histórico que começa no cristianismo primitivo, passa pela consolidação da Igreja Católica, explode com a Reforma Protestante e se desenvolve ao longo dos séculos por meio de movimentos espirituais, teológicos e missionários.
Com suas raízes na Bíblia e no desejo de viver o evangelho de forma autêntica, a religião evangélica continua a se transformar e a influenciar milhões de pessoas ao redor do mundo. Compreender sua origem é essencial para entender não apenas a fé evangélica, mas também a história religiosa, cultural e social do mundo ocidental e contemporâneo.
